Os 5 prédios históricos de Salvador que (re)escreveram a Independência do Brasil

Foto de Lohana Ribeiro
Lohana Ribeiro

Foto: Manu Dias

Salvador é um verdadeiro acervo a céu aberto. Em suas ruas e ladeiras, erguem-se construções históricas que participaram ativamente do processo de Independência do Brasil.

Antes de voltarmos ao 7 de setembro de 1822, às margens do Ipiranga, é preciso reconhecer que a Independência não se fez de um único grito, mas de um processo mais longo e complexo. Como bem lembra o historiador Paulo Serra, “a de São Paulo foi apenas protocolar”. A verdadeira expulsão dos portugueses se consolidou no 2 de Julho de 1823, em Salvador, onde a luta foi mais intensa.

A história não foi escrita somente nos campos de batalha, mas também nas pedras, paredes e baluartes que resistiram ao tempo. Monumentos e edifícios públicos de Salvador se transformaram em protagonistas desse processo, ora como espaços de decisão política, ora como fortificações estratégicas.

Te convido a revisitar alguns dos projetos arquitetônicos mais importantes desse período. Mais do que construções, eles foram instrumentos da Independência: estruturas erguidas para defender, reunir, abrigar e, ao final, testemunhar o nascimento de um país.

Salvador pavimentou o palco da independência

Feche os olhos por um instante e imagine o som dos canhões e o cheiro de pólvora no ar. Era 1822. Enquanto o país inteiro recorda o Grito do Ipiranga, na Bahia o processo de independência ganhava contornos muito mais viscerais.

Enquanto todo o país celebra o Dia da Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822, a Bahia trilhou um caminho próprio: o processo começou em Salvador em 19 de fevereiro de 1822 e só terminou em 2 de julho de 1823, com a expulsão definitiva das tropas portuguesas. Não à toa, a data é considerada pelos baianos como a data da verdadeira independência.

quadro Independência ou Morte, prédios históricos independência do Brasil
O famoso quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, pode ser apreciado no Museu do Ipiranga, em São Paulo (Foto: Paulo Pinto – Agência Brasil)

Em solo baiano, a independência se decidiu em trincheiras, canhoneiras e edifícios públicos cercados. O 2 de Julho de 1823 marca não só a retirada definitiva das tropas portuguesas, mas também a transformação de Salvador em um museu vivo de arquitetura e resistência.

Nesse processo, os projetos arquitetônicos não foram coadjuvantes. Fortes e edificações funcionaram como cenário de batalhas e espaços de decisão. Cada pedra assentada e cada muro erguido ajudaram a sustentar o esforço coletivo de um povo que queria escrever sua própria história. 

Conheça os 5 principais deles em ordem cronológica:

1. Câmara Municipal de Salvador

Fachada da Câmara Municipal de Salvador (Foto: Antonio Queirós)

A primeira construção de relevância no processo da Independência do Brasil foi a Câmara Municipal de Salvador. Construída originalmente em 1549, ano da fundação da cidade, a edificação inicial era simples, feita de palha e taipa. Com sua estrutura atual datando de 1696, o imóvel guarda, portanto, uma história ainda mais antiga, marcada por transformações ao longo dos séculos.

A Câmara foi a primeira do Brasil entre as capitais e consolidou-se como espaço central da vida política e administrativa de Salvador. A substituição da estrutura primitiva por um modelo em alvenaria, em 1696, deu forma mais próxima ao prédio que conhecemos hoje.

No final do século XIX, o arquiteto Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá realizou uma reforma radical, introduzindo traços neoclássicos e acrescentando um relógio à torre, onde hoje permanece somente o sino. 

Imagem antiga Câmara Municipal de Salvador
Imagem postal anterior ao bombardeio, exibindo a antiga torre da Câmara com relógio (Foto: Reprodução)

Essas mudanças, porém, foram revertidas no século XX, durante a restauração da década de 1970, conforme destacou o historiador Jaime Nascimento, que devolveu à edificação sua feição colonial original.

No mesmo período, a cidade vivia disputas políticas acirradas. O Centro Histórico foi bombardeado: o Forte de São Marcelo, o Forte de São Pedro e o Forte do Barbalho dispararam contra a Praça Municipal, atingindo inclusive a torre da Câmara.

Na época, a edificação possuía uma torre com um relógio e outra com sino, relembra o historiador Paulo Serra. Ele conta que foi esse sino que convocou os vereadores para uma reunião decisiva sobre o futuro da cidade. No entanto, o general português Madeira de Melo cercou o prédio e impediu o encontro, recusando a proposta de divisão de governo.

Posteriormente, diversos militares brasileiros foram presos no Forte do Barbalho, entre eles o lendário João das Botas, lembrado como herói por Paulo Serra. Muitos acabaram exilados em Lisboa.

Mais tarde, a Câmara ainda abrigou a Prefeitura de Salvador, reforçando sua centralidade política. Mesmo marcada por bombardeios, reformas e disputas, a Câmara Municipal resistiu como testemunha dos embates que cercaram a Independência do Brasil na Bahia e como peça fundamental da memória arquitetônica da capital.

2. Forte do Barbalho

forte do barbalho, prédios históricos independência do Brasil
Imagem do Forte do Barbalho (Foto: Wikipédia)

No processo de Independência brasileira, o Forte de Nossa Senhora do Monte do Carmo, mais conhecido como Forte do Barbalho, é considerado uma das maiores fortificações de Salvador e teve papel de destaque tanto estratégico quanto simbólico. 

Sua origem remonta ao século XVII, quando o pernambucano Luís Barbalho ergueu uma fortificação improvisada para resistir ao ataque holandês de 1638. A posição escolhida era estratégica, protegendo o flanco norte da cidade contra as baterias de Maurício de Nassau. 

Essa construção emergencial deu lugar, ao longo dos séculos XVII e XVIII, a uma estrutura mais robusta. Engenheiros militares como João Coutinho, Miguel Pereira da Costa e o Brigadeiro Massé reformularam o projeto, que passou a ser feito em pedra e cal, seguindo o modelo clássico em quadrilátero com baluartes. Um detalhe, porém, chama a atenção: um dos baluartes foi projetado de forma arredondada, um anacronismo arquitetônico raro, possivelmente justificado por razões táticas.

Baluarte e guarita do forte do barbalho

Em 1736, sob o reinado de D. João V, a fortificação foi concluída como uma das mais sólidas da capital. O polígono externo amplo, os fossos de proteção e a espessura reforçada dos parapeitos na direção mais vulnerável revelam o caráter estratégico do projeto, pensado para resistir a ataques de artilharia.

Ao longo de sua trajetória, o Barbalho acumulou funções diversas, servindo também como prisão e quartel. Mais recentemente, em 2014, passou por obras de requalificação promovidas pelo governo da Bahia, que investiu mais de R$ 3 milhões na recuperação de salas em risco de desabamento. Hoje, a responsabilidade pela preservação do monumento está sob o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

localização forte do barbalho, prédios históricos independência do Brasil

Durante as batalhas da Independência, em 1823, o forte foi ocupado pelas tropas fiéis a Portugal. Na retirada, os canhões foram inutilizados, mas logo recuperados por patriotas para celebrar a vitória e o hasteamento da bandeira do Império. Assim, sua arquitetura de defesa também se tornou símbolo da libertação.

3. Convento da Lapa

Convento da Lapa, prédios históricos independência do Brasil

O Convento da Lapa, inaugurado em 1744 para as Franciscanas Concepcionistas, é um marco arquitetônico e histórico de Salvador. Seu conjunto inclui uma igreja de nave única, acesso lateral e torre junto à capela-mor, além de elementos artísticos relevantes, como os azulejos barrocos vindos de Lisboa no século XVIII e a pintura ilusionista do forro da nave atribuída a Veríssimo de Souza Freitas.

Convento da Lapa, projetos arquitetônicos de Salvador

A construção seguiu etapas: 

  • autorização em 1734, 
  • inauguração em 1744, 
  • início da igreja em 1750, 
  • altar-mor entalhado em 1755, 
  • torre concluída por volta de 1785. 

Sua arquitetura tem semelhanças com o antigo Convento das Mercês, refletindo o estilo do período. Tombado pelo IPHAN em 1938, o conjunto é considerado patrimônio histórico-cultural.

O convento foi o lugar de um confronto direto da batalha em 19 de fevereiro de 1822. Segundo o historiador Serra, foi aqui que ocorreu a primeira morte. Soldados portugueses tentaram invadir o claustro, e a abadessa sóror Joana Angélica se colocou na porta para impedir a entrada. Ela foi golpeada por baionetas, tornando-se mártir e primeira heroína da luta. O capelão Daniel Nunes da Silva Lisboa também foi morto, enquanto as demais religiosas se refugiaram no Convento do Desterro.

Sua estrutura, originalmente concebida para contemplação e clausura, foi transformada em trincheira da nossa independência.

4. Forte São Pedro e São Paulo da Gamboa

Imagem do Forte de São Pedro

Para Serra, o Forte de São Pedro e  São Paulo da Gamboa foram considerados o quartel-general (QG) do general Inácio Madeira de Melo, comandante das tropas portuguesas na Bahia. 

O Forte São Pedro passou de trincheira improvisada a fortaleza regular de pedra e cal, com muralhas espessas e canhoneiras. Já a Bateria de São Paulo da Gamboa, construída no início do século XVIII sob orientação do engenheiro Miguel Pereira da Costa, complementava o sistema defensivo disparando quase à linha d’água, cobrindo os pontos fracos do forte principal.

Canhão Armstrong da bateria de São Paulo da Gamboa em antiga, prédios históricos independência do Brasil
Canhão Armstrong da bateria de São Paulo da Gamboa em antiga (Foto: Edgar Falcão)

O Forte São Pedro foi, ao longo dos séculos, peça central da defesa de Salvador. Construído originalmente em terra, ganhou, a partir do século XVII, sucessivas reformas que lhe deram a forma de quadrilátero com quatro baluartes em ponta de lança, modelo típico da engenharia militar portuguesa influenciada pelos teóricos holandeses.

O interesse português no controle desse ponto estratégico se explica pela sua ligação direta com o mar: Serra lembra que o forte tinha comunicação com a Bateria de São Paulo da Gamboa, situada logo abaixo, próxima à orla, onde existia um túnel de mata que facilitava a movimentação. Essa posição oferecia às tropas portuguesas acesso privilegiado à frota naval, razão pela qual Madeira de Melo ameaçou inclusive bombardear para assegurar a posse da fortificação.

A estratégia deu resultado: “Madeira queria de qualquer jeito o Forte São Pedro, ameaçou dar tiro de canhão, e o forte foi evacuado de um dia para outro”, relata Paulo Serra. Em seguida, suas tropas tomaram o forte, que tinha uma ligação direta com o Forte São Paulo da Gamboa, localizado logo abaixo.

Dessa forma, o complexo São Pedro–São Paulo tornou-se a base central das operações portuguesas durante o conflito, até ser retomado pelos brasileiros em 2 de julho de 1823.

5. Porto de Salvador

prédios históricos independência do Brasil, baia de todos os santos

O Porto de Salvador foi estratégico no processo da Independência, pois recebia os navios que reforçavam a tropa de Madeira de Melo.

Trata-se de um dos mais antigos ancoradouros do país, ativo desde o século XVI, quando era o único porto estruturado do Brasil. Por ele escoavam produtos como açúcar, pau-brasil, algodão e couro para Portugal, além de receber mercadorias do Reino e da África. Durante quase 400 anos, sua operação se manteve apoiada apenas nas condições naturais da Baía de Todos-os-Santos.

No século XX, em 1906, iniciou-se o processo de modernização que transformou o antigo ancoradouro em porto organizado. A primeira parte do cais da Alfândega foi inaugurada em 1913. Em poucos anos, já contava com 750 metros de cais, oito guindastes móveis, linhas férreas e acesso viário exclusivo. Ao longo do tempo, recebeu novas intervenções, incluindo dragagem do canal, expansão do terminal de passageiros e melhorias logísticas, consolidando-se como um dos principais portos do país.

Como patrimônio natural, precisamos mencionar que a Baía de Todos-os-Santos foi palco decisivo da batalha naval de 1823. Suas instalações serviram de abrigo para as embarcações e deram suporte logístico tanto às tropas portuguesas quanto às brasileiras.  Visitar essas construções é compreender que o patrimônio histórico de Salvador vai além da preservação da memória: ele agrega valor à cidade e a posiciona entre os mercados imobiliários mais promissores do Brasil.

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