Foto: Manu Dias
Salvador é um verdadeiro acervo a céu aberto. Em suas ruas e ladeiras, erguem-se construções históricas que participaram ativamente do processo de Independência do Brasil.
Antes de voltarmos ao 7 de setembro de 1822, às margens do Ipiranga, é preciso reconhecer que a Independência não se fez de um único grito, mas de um processo mais longo e complexo. Como bem lembra o historiador Paulo Serra, “a de São Paulo foi apenas protocolar”. A verdadeira expulsão dos portugueses se consolidou no 2 de Julho de 1823, em Salvador, onde a luta foi mais intensa.
A história não foi escrita somente nos campos de batalha, mas também nas pedras, paredes e baluartes que resistiram ao tempo. Monumentos e edifícios públicos de Salvador se transformaram em protagonistas desse processo, ora como espaços de decisão política, ora como fortificações estratégicas.
Te convido a revisitar alguns dos projetos arquitetônicos mais importantes desse período. Mais do que construções, eles foram instrumentos da Independência: estruturas erguidas para defender, reunir, abrigar e, ao final, testemunhar o nascimento de um país.
Salvador pavimentou o palco da independência
Feche os olhos por um instante e imagine o som dos canhões e o cheiro de pólvora no ar. Era 1822. Enquanto o país inteiro recorda o Grito do Ipiranga, na Bahia o processo de independência ganhava contornos muito mais viscerais.
Enquanto todo o país celebra o Dia da Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822, a Bahia trilhou um caminho próprio: o processo começou em Salvador em 19 de fevereiro de 1822 e só terminou em 2 de julho de 1823, com a expulsão definitiva das tropas portuguesas. Não à toa, a data é considerada pelos baianos como a data da verdadeira independência.

Em solo baiano, a independência se decidiu em trincheiras, canhoneiras e edifícios públicos cercados. O 2 de Julho de 1823 marca não só a retirada definitiva das tropas portuguesas, mas também a transformação de Salvador em um museu vivo de arquitetura e resistência.
Nesse processo, os projetos arquitetônicos não foram coadjuvantes. Fortes e edificações funcionaram como cenário de batalhas e espaços de decisão. Cada pedra assentada e cada muro erguido ajudaram a sustentar o esforço coletivo de um povo que queria escrever sua própria história.
Conheça os 5 principais deles em ordem cronológica:
1. Câmara Municipal de Salvador

A primeira construção de relevância no processo da Independência do Brasil foi a Câmara Municipal de Salvador. Construída originalmente em 1549, ano da fundação da cidade, a edificação inicial era simples, feita de palha e taipa. Com sua estrutura atual datando de 1696, o imóvel guarda, portanto, uma história ainda mais antiga, marcada por transformações ao longo dos séculos.
A Câmara foi a primeira do Brasil entre as capitais e consolidou-se como espaço central da vida política e administrativa de Salvador. A substituição da estrutura primitiva por um modelo em alvenaria, em 1696, deu forma mais próxima ao prédio que conhecemos hoje.
No final do século XIX, o arquiteto Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá realizou uma reforma radical, introduzindo traços neoclássicos e acrescentando um relógio à torre, onde hoje permanece somente o sino.

Essas mudanças, porém, foram revertidas no século XX, durante a restauração da década de 1970, conforme destacou o historiador Jaime Nascimento, que devolveu à edificação sua feição colonial original.
No mesmo período, a cidade vivia disputas políticas acirradas. O Centro Histórico foi bombardeado: o Forte de São Marcelo, o Forte de São Pedro e o Forte do Barbalho dispararam contra a Praça Municipal, atingindo inclusive a torre da Câmara.
Na época, a edificação possuía uma torre com um relógio e outra com sino, relembra o historiador Paulo Serra. Ele conta que foi esse sino que convocou os vereadores para uma reunião decisiva sobre o futuro da cidade. No entanto, o general português Madeira de Melo cercou o prédio e impediu o encontro, recusando a proposta de divisão de governo.
Posteriormente, diversos militares brasileiros foram presos no Forte do Barbalho, entre eles o lendário João das Botas, lembrado como herói por Paulo Serra. Muitos acabaram exilados em Lisboa.
Mais tarde, a Câmara ainda abrigou a Prefeitura de Salvador, reforçando sua centralidade política. Mesmo marcada por bombardeios, reformas e disputas, a Câmara Municipal resistiu como testemunha dos embates que cercaram a Independência do Brasil na Bahia e como peça fundamental da memória arquitetônica da capital.
2. Forte do Barbalho

No processo de Independência brasileira, o Forte de Nossa Senhora do Monte do Carmo, mais conhecido como Forte do Barbalho, é considerado uma das maiores fortificações de Salvador e teve papel de destaque tanto estratégico quanto simbólico.
Sua origem remonta ao século XVII, quando o pernambucano Luís Barbalho ergueu uma fortificação improvisada para resistir ao ataque holandês de 1638. A posição escolhida era estratégica, protegendo o flanco norte da cidade contra as baterias de Maurício de Nassau.
Essa construção emergencial deu lugar, ao longo dos séculos XVII e XVIII, a uma estrutura mais robusta. Engenheiros militares como João Coutinho, Miguel Pereira da Costa e o Brigadeiro Massé reformularam o projeto, que passou a ser feito em pedra e cal, seguindo o modelo clássico em quadrilátero com baluartes. Um detalhe, porém, chama a atenção: um dos baluartes foi projetado de forma arredondada, um anacronismo arquitetônico raro, possivelmente justificado por razões táticas.

Em 1736, sob o reinado de D. João V, a fortificação foi concluída como uma das mais sólidas da capital. O polígono externo amplo, os fossos de proteção e a espessura reforçada dos parapeitos na direção mais vulnerável revelam o caráter estratégico do projeto, pensado para resistir a ataques de artilharia.
Ao longo de sua trajetória, o Barbalho acumulou funções diversas, servindo também como prisão e quartel. Mais recentemente, em 2014, passou por obras de requalificação promovidas pelo governo da Bahia, que investiu mais de R$ 3 milhões na recuperação de salas em risco de desabamento. Hoje, a responsabilidade pela preservação do monumento está sob o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Durante as batalhas da Independência, em 1823, o forte foi ocupado pelas tropas fiéis a Portugal. Na retirada, os canhões foram inutilizados, mas logo recuperados por patriotas para celebrar a vitória e o hasteamento da bandeira do Império. Assim, sua arquitetura de defesa também se tornou símbolo da libertação.
3. Convento da Lapa

O Convento da Lapa, inaugurado em 1744 para as Franciscanas Concepcionistas, é um marco arquitetônico e histórico de Salvador. Seu conjunto inclui uma igreja de nave única, acesso lateral e torre junto à capela-mor, além de elementos artísticos relevantes, como os azulejos barrocos vindos de Lisboa no século XVIII e a pintura ilusionista do forro da nave atribuída a Veríssimo de Souza Freitas.

A construção seguiu etapas:
- autorização em 1734,
- inauguração em 1744,
- início da igreja em 1750,
- altar-mor entalhado em 1755,
- torre concluída por volta de 1785.
Sua arquitetura tem semelhanças com o antigo Convento das Mercês, refletindo o estilo do período. Tombado pelo IPHAN em 1938, o conjunto é considerado patrimônio histórico-cultural.
O convento foi o lugar de um confronto direto da batalha em 19 de fevereiro de 1822. Segundo o historiador Serra, foi aqui que ocorreu a primeira morte. Soldados portugueses tentaram invadir o claustro, e a abadessa sóror Joana Angélica se colocou na porta para impedir a entrada. Ela foi golpeada por baionetas, tornando-se mártir e primeira heroína da luta. O capelão Daniel Nunes da Silva Lisboa também foi morto, enquanto as demais religiosas se refugiaram no Convento do Desterro.
Sua estrutura, originalmente concebida para contemplação e clausura, foi transformada em trincheira da nossa independência.
4. Forte São Pedro e São Paulo da Gamboa

Para Serra, o Forte de São Pedro e São Paulo da Gamboa foram considerados o quartel-general (QG) do general Inácio Madeira de Melo, comandante das tropas portuguesas na Bahia.
O Forte São Pedro passou de trincheira improvisada a fortaleza regular de pedra e cal, com muralhas espessas e canhoneiras. Já a Bateria de São Paulo da Gamboa, construída no início do século XVIII sob orientação do engenheiro Miguel Pereira da Costa, complementava o sistema defensivo disparando quase à linha d’água, cobrindo os pontos fracos do forte principal.

O Forte São Pedro foi, ao longo dos séculos, peça central da defesa de Salvador. Construído originalmente em terra, ganhou, a partir do século XVII, sucessivas reformas que lhe deram a forma de quadrilátero com quatro baluartes em ponta de lança, modelo típico da engenharia militar portuguesa influenciada pelos teóricos holandeses.
O interesse português no controle desse ponto estratégico se explica pela sua ligação direta com o mar: Serra lembra que o forte tinha comunicação com a Bateria de São Paulo da Gamboa, situada logo abaixo, próxima à orla, onde existia um túnel de mata que facilitava a movimentação. Essa posição oferecia às tropas portuguesas acesso privilegiado à frota naval, razão pela qual Madeira de Melo ameaçou inclusive bombardear para assegurar a posse da fortificação.
A estratégia deu resultado: “Madeira queria de qualquer jeito o Forte São Pedro, ameaçou dar tiro de canhão, e o forte foi evacuado de um dia para outro”, relata Paulo Serra. Em seguida, suas tropas tomaram o forte, que tinha uma ligação direta com o Forte São Paulo da Gamboa, localizado logo abaixo.
Dessa forma, o complexo São Pedro–São Paulo tornou-se a base central das operações portuguesas durante o conflito, até ser retomado pelos brasileiros em 2 de julho de 1823.
5. Porto de Salvador

O Porto de Salvador foi estratégico no processo da Independência, pois recebia os navios que reforçavam a tropa de Madeira de Melo.
Trata-se de um dos mais antigos ancoradouros do país, ativo desde o século XVI, quando era o único porto estruturado do Brasil. Por ele escoavam produtos como açúcar, pau-brasil, algodão e couro para Portugal, além de receber mercadorias do Reino e da África. Durante quase 400 anos, sua operação se manteve apoiada apenas nas condições naturais da Baía de Todos-os-Santos.
No século XX, em 1906, iniciou-se o processo de modernização que transformou o antigo ancoradouro em porto organizado. A primeira parte do cais da Alfândega foi inaugurada em 1913. Em poucos anos, já contava com 750 metros de cais, oito guindastes móveis, linhas férreas e acesso viário exclusivo. Ao longo do tempo, recebeu novas intervenções, incluindo dragagem do canal, expansão do terminal de passageiros e melhorias logísticas, consolidando-se como um dos principais portos do país.
Como patrimônio natural, precisamos mencionar que a Baía de Todos-os-Santos foi palco decisivo da batalha naval de 1823. Suas instalações serviram de abrigo para as embarcações e deram suporte logístico tanto às tropas portuguesas quanto às brasileiras. Visitar essas construções é compreender que o patrimônio histórico de Salvador vai além da preservação da memória: ele agrega valor à cidade e a posiciona entre os mercados imobiliários mais promissores do Brasil.







